Following my life

Following my life

Quando nasci procurei por ar, foi fácil. Depois que percebi o mundo novo que apareci comecei a pensar em como seria minha família, será que minha mamãe cuidará bem de mim? Tomara que meu papai seja um super-herói. Acho que não tenho irmãozinhos. Por que tive que sair da minha casinha quentinha e segura? Quero voltar para lá.
Completo hoje um ano. Cresci rápido, estou forte e robusto, mamãe tem orgulho de mim. Adoro quando minha mamãe me faz dar risadas, sinto-me muito bem quando brinco com ela e com o meu papai. Sinto que já posso falar, mas as palavras não saem. Como mostrarei que amo minha mamãe?
Agora sim, estou realmente forte! Hoje é meu aniversário de dois anos. Já sei falar “mamãe”, sinto que ela sabe o quanto a amo. Meu papai trabalha muito, será que ele sabe que o amo também? Quero falar logo, preciso falar logo.

Hoje escutei coisas estranhas, papei e mamãe estavam brigando e só pararam quando comecei a chorar. Por que eles brigaram? Será que fiz alguma coisa? Será que não me querem mais? Eu amo muito minha mamãe, mas será que ela me ama também? Eu acho que sim, ela me ama muito.
Minha mãe não me ama mais! Por que ela me colocou nessa “escola”? Ela não quer mais ficar comigo? Eu prometo nunca mais chorar, prometo! E também não vou mais fazer xixi na cama. Mamãe cadê você?
Estou começando a entender mais as coisas. Amanhã completarei meus dez anos, já sou um homem crescido. Não consigo entender, meus pais continuam brigando, tomara que a culpa não seja minha. Minha mãe está estranha, mas ainda sinto que ela me ama, apesar de não me falar mais.
Meus quinze anos, minha adolescência é um tédio. Minha mãe trabalha o dia inteiro, meu pai só aparece para comer. Claramente essa família está se desfazendo. Quero morar sozinho. Será que se eu fugir de casa eles prestarão mais atenção em mim?
Dezesseis. Primeira namorada, primeiro emprego e primeira transa. Um erro, não usei camisinha, não me precavi. Engravidei a menina. Relutei até o último instante em contar para meus pais, entretanto a pressão foi grande. Sugeri o aborto, ela não quis dizendo que era muito perigoso. Eu só tenho dezesseis anos, sou uma criança, como contarei para meus pais, para os pais dela?

Fui forçado a casar. Trabalho 18 horas por dia, ganho uma miséria. Meu filho está quase nascendo, estou ficando louco. Ofereceram um “bagulho” para mim experimentar, viciei. Minha vida está perdida a partir deste momento.
Meu filho nasceu, mas preciso sustentar meu vício. Vendi todos os meus objetos, foi pouco, preciso de mais. Vou vender a televisão, isso me manterá por alguns dias. O vício está forte, quero mais.
O pirralho completou um ano, as porcarias das fraldas custam uma nota por dia. Meu vício está ficando de lado. Quer saber? Foda-se esse muleque, o “bagulho” é o que me interessa. Ele tem mãe, não tem? Então, ela que cuide.
A treta ferrou, resolvi fugir. A piriguete resolveu chamar a polícia. A minha véia resolveu ajudar. São tudo um bando de X9. É, vou fugir para longe. Mas preciso de dinheiro.
O véio tá doente, tenho que voltar. Mas foda-se, quero mais drogas, quero é ser feliz.
Estou com 30 anos, mas aparento estar na casa dos 50. Meus cabelos estão finos, minha pele branca e meus olhos vermelhos. A vida ficou louca depois que conheci o “bagulho”. Ontem desmaiei, fui parar no hospital. Os médicos me falaram que, se eu continuar assim, morrerei em dois meses. Tentei.
Consegui vencer o vício, mas já é tarde. Nem vi meu filho crescer. Sinto que ele nem sabe que existo. Como será que ele é? Treze anos se passaram… Terei forças para vê-lo? Tenho que tentar. Ou não? Acho que ele sentirá vergonha de mim, ou raiva. Entendo o que ele sente. Acho melhor eu me calar e esperar a morte chegar.
O telefone tocou, fiz força para atendê-lo. Estou fraco. Era uma criança, dizia ser meu filho. Chorei, ele sabe que existo. Conversamos, ele percebeu que eu estava chorando e me perguntou o motivo. Respondi que estava com saudades. Fui convidado a visitá-lo e que ele me amava, apesar de tudo. Não aguentei, desabei, senti meu coração apertar, minhas pernas estremecer e minhas mãos suarem. Não aguentei, comecei a morrer. Ao longe, em meu computador, vi uma foto de pai e filho, o que piorou ainda mais meu estado.
O menino gritava meu nome pelo telefone, eu não conseguia responder. Mas consegui falar com dificuldade: eu… tam… bém… te… amo… meu… filh…
Pense em suas atitudes, suas conquistas e em seus sonhos. Pense em como ser feliz sem se auto-destruir. Pense nas coisas como se cada uma fosse única. Pense na vida e em seu significado. Pense em viver, pense em crescer, pense em amar.

Créditos: [1] Vila Mulher; [2] PPGPSI; [3] Miguel Dias; [4] Ante et Post; (seqüencia na ordem das imagens).

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